FATO 51 – Sociedade Secreta Maçonaria – Parte 2


5. Qual É o Lugar de Jesus Cristo?

Diante de um conceito ambíguo e unitariano de Deus, seria correto esperar pouco sobre o Redentor. Ao buscarmos informações acerca de Jesus Cristo nos dicionários e enciclopédias maçônicos – Coil, Mackey, Macoy, Gervásio de Figueiredo, Rizzardo da Camino, Aslan – descobrimos uma ausência quase total de dados a esse respeito. Quando se procuram referências sobre Jesus Cristo, a cruz ou outros ensinos especificamente cristãos nas próprias citações bíblicas dos rituais e cerimônias maçônicos, percebe-se logo que todas foram omitidas – tiradas do meio dos trechos (e. g. At 4.11; 2 Ts 3.6, 12; 1 Pe 2.4-8, onde a pedra angular é o verdadeiro maçom).[59] Embora as reuniões maçônicas incluam a oração, é absolutamente proibido orar no nome de Jesus. Eles até mesmo modificaram o calendário baseado no advento de Cristo, aceito no mundo inteiro, para um sistema irreligioso: “Os maçons, ao fixar datas em seus documentos oficiais”, diz Mackey, “nunca fazem uso da época comum ou era vulgar, mas têm uma que lhes é peculiar…”[60] Paradoxalmente, em alguns casos, os mesmos dicionários que omitem Jesus Cristo contêm artigos substanciais sobre dezenas de outros religiosos antigos e modernos – Jonas, Ezequiel, Orfeu, Pitágoras, Zoroastro, Emmanuel Swedenborg, Annie Besant, Helena Blavatsky etc. Isso sugere, no mínimo, a irrelevância de Jesus Cristo na filosofia maçônica.

Em alguns ‘aspectos, a maçonaria evidencia implicações ainda mais preocupantes: por um lado, a divindade de Cristo é negada e, por outro, a divinização do homem é afirmada. Rizzardo da Camino define Cristo da seguinte maneira: “É a denominação de um ‘estado de alma’ que se encontra na parte espiritual do ser humano. Jesus atingiu esse ‘grau’ na Cruz e por isso foi denominado de Jesus o Cristo. É erro dizer-se ‘Jesus’… Cada cristão pode ter em si o Cristo…”[61] Se as evidências acima forem conclusivas de que Deus normalmente é conceituado em categorias deístas, ocultas e panteístas, então é impossível que Jesus Cristo seja o Filho unigênito de Deus. Ele se torna apenas “um grande mestre de moralidade” ou protótipo de divinização – algo corroborado por vários dos principais autores maçons.[62] Entretanto, apesar das múltiplas negações da divindade de Jesus Cristo, os cristãos maçons ressalvam que tais não passam de diferenças de convicções religiosas, todas permitidas sob o teto maçônico; assim, uma posição é igual à outra.

Uma história recente toca nesse ponto. O Venerável Mestre James Shaw (33°) era um orador experiente da cerimônia do Cavaleiro Rosa-Cruz (18° grau do Rito Escocês), que é praticada toda quinta-feira da Semana Santa. Conforme havia feito muitas vezes, mas agora como um cristão recém-convertido – estando todos vestidos em mantos pretos e encapuzados – ele começou a conduzir o ritual: “Encontramo-nos neste dia para comemorar a morte de nosso ‘Sapientíssimo e Perfeito Mestre’, não como inspirado ou divino, pois isto não compete a nós decidir, mas como pelo menos o maior dos apóstolos da humanidade”. A mesa em forma de cruz, sobre a qual há rosas vermelhas, é o lugar onde o mestre dirige a ceia maçônica, com vinho e pão: “Comei e dai de comer a quem tem fome… Bebei e dai de beber a quem tem sede”. Depois de apagar todas as velas do candelabro, com exceção de uma, o mestre anuncia a morte do “Sapientíssimo e Perfeito Mestre” – “Ele está morto! Lamentai, pranteai e chorai, pois ele se foi” e apaga a última vela, tudo terminando em escuridão.[63] Embora Shaw tivesse conduzido esse mesmo ritual diversas vezes, nesta ocasião ele estava tremendo e com náusea, reconhecendo o significado cristológico do que fazia: “Tínhamos dramatizado e comemorado a extinção da vida de Jesus, sem mencionar sequer uma vez seu nome… Eu havia acabado de chamar Jesus de ‘um apóstolo da humanidade’ que não era inspirado nem divino”. Logo depois, Shaw renunciou à loja.[64] Sua conclusão foi que o sentido anticristão não representava apenas uma facção maçônica ocultista declarada, mas certos rituais e ensinos básicos da maçonaria são deliberadamente antagonistas à fé cristã.

6. Como Alguém É Salvo na Maçonaria?

Quando o iniciado (chamado profano) participa do primeiro grau de Aprendiz-Maçom, confessa-se que ele (vendado, nesse momento) vivia nas trevas e estava cego, mas, agora, deseja entrar à verdadeira luz da maçonaria.[65] Não há nenhuma exceção para o cristão. Enquanto a irmandade não articula publicamente um caminho de salvação, existem pressuposições inegáveis – vistas desde o primeiro rito até o sepultamento de cada maçom. A perspectiva soteriológica da maçonaria é percebida através de quatro conceitos, os quais orientam toda sua prática: (a) a natureza do homem; (b) a aceitação de Deus; (c) a vida vindoura; e (d) o proselitismo evangélico.

a. A natureza do homem. O cristianismo clássico confessa a verdade irônica de que o ser humano, sendo criado na imagem de Deus, é ontologicamente superior e separado das outras criaturas terrestres. Ao mesmo tempo, porém, ele é espiritualmente rebelde e corrupto, afastado de Deus e morto em suas transgressões – ou seja, ele é moralmente o pior ser terrestre. Apesar de suas muitas instruções moralistas, a maçonaria é marcada por uma ausência total dos conceitos de pecado e arrependimento (nem possui tais palavras em seus dicionários). Em vez de estar separado do G.A.D.U., o homem é visto como apenas imperfeito e não-iluminado, algo simbolizado na Pedra Bruta (cubo polígono) do Aprendiz, que nos graus seguintes é burilada e polida: “Símbolo da Idade Primitiva e, portanto, do homem em estado natural e sem instrução, a Pedra Bruta é a imagem da alma do profano antes de ser instruído nos mistérios maçônicos”.[66] O profano, ou não-maçom, não está derradeiramente perdido, mas encontra-se apenas mais longe de Deus do que a elite fraternal da maçonaria, que possui a responsabilidade de construir “o Templo da Humanidade”. A loja é o meio através do qual os homens podem melhorar a si mesmos e procuram “levantar templos à Virtude e cavar masmorras ao vício”.[67] Assim, a maçonaria pressupõe essencialmente a natureza boa de cada ser humano, mas esta natureza precisa de um despertamento e de uma iluminação por meio da filosofia da fraternidade.[68] Obviamente, não há necessidade e nem motivo para a propiciação de pecados mediante a morte de Jesus Cristo na cruz.

b. A aceitação de Deus. “A maçonaria”, afirma J. S. M. Ward, “ensina que cada homem, por si mesmo, pode desenvolver seu próprio conceito de Deus e, assim, alcançar a salvação”.[69] Sem dúvida, a maçonaria promulga a idéia de que, através de seus próprios esforços, o homem é aperfeiçoado e torna-se digno perante o G.A.D.U. A regeneração, ou conversão, é essencialmente um processo da alma humana.

A doutrina da regeneração foi ensinada, nos Antigos Mistérios, por símbolos: não é, porém, o dogma teológico da regeneração peculiar à Igreja Cristã, mas o dogma filosófico de uma mudança da morte para a vida, isto é, um novo nascimento para a existência imortal… É esta a doutrina ensinada nos Mistérios maçônicos, e muito especialmente no simbolismo do Terceiro Grau [ressurreição de Hirãm-Abif]. Não precisamos dizer que o Maçom se acha regenerado pelo fato de ter sido iniciado, mas tão-somente que foi doutrinado na filosofia da regeneração, ou na do renascimento de todas as coisas – da luz surgindo das trevas, da vida nascendo da morte, da vida eterna em substituição da vida transitória.[70]

Rizzardo da Camino acrescenta: “A finalidade precípua da Maçonaria é o ato regenerativo. A reconstrução do ser humano, da Natureza, do Cosmos, são os ideais maçônicos”.[71] Se alguns expositores da maçonaria falam de uma salvação realizada por uma progressão que envolve o auto-aperfeiçoamento e boas obras, outros, como Albert Pike, avançam mais um passo, já visto anteriormente: “Em cada ser humano, o Divino e o Humano estão entrelaçados”, e “a maçonaria é a subjugação do Humano pelo Divino que está no homem”.[72] Como Pike, Gervásio de Figueiredo pressupõe a divindade inata de cada homem: “Deus é a alma de tudo… Deus e o mundo são apenas um”.[73] Diante das múltiplas afirmações maçônicas sobre a natureza da salvação, muitos autores concluem que a soteriologia maçônica é antiética à fé evangélica, conforme articulado pelo escritor maçônico E. A. Coil:

O fato de a diferença fundamental entre os princípios incorporados nos credos históricos da cristandade e aqueles de nossas ordens secretas modernas não ter sido claramente refletida é indicado pela evidência de que muitos comprometem-se com ambos. Há maçons que, nas igrejas, aderem à doutrina de que “somos considerados justos perante Deus apenas pelo mérito de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, pela fé, e não por nossas próprias obras e merecimentos”, e entusiasticamente juntam-se ao coro dos hinos nos quais essa idéia é expressa. Então, em suas reuniões maçônicas, exatamente com o mesmo entusiasmo, eles assentem à seguinte declaração: “Embora nossos pensamentos, palavras e ações possam ser ocultos dos olhos dos homens, ainda assim aquele Olho-Que-Tudo-Vê, a quem o sol, a lua e as estrelas obedecem… penetra nos recantos mais íntimos do coração humano, e nos recompensará de acordo com nossos méritos”. Uma criança pequena, assim que se chame sua atenção para o assunto, deve ser capaz de perceber que é impossível harmonizar a frase do credo aqui citada com a declaração extraída da admoestação de uma de nossas maiores e mais eficazes ordens secretas, e encontrada, na totalidade, nas liturgias de todas, ou quase todas, as outras… Uma dessas afirmações exclui a outra. Os homens não podem coerentemente anuir a ambas.[74]

Na maçonaria, a salvação do homem é alcançada sem Jesus Cristo. O ser humano alcançará a perfeição e a aprovação divina através de seus próprios esforços moralistas, senão por sua própria divinização.

c. A vida vindoura. O Landmark n° 20 declara que, de cada maçom, “é exigida a crença de uma vida futura”.[75] A imortalidade da alma é uma das doutrinas mais importantes da confraria. Por isso, tendo obtido a permissão da família, os maçons exigem o controle exclusivo sobre o último rito do irmão falecido. Embora os rituais fúnebres variem, todos declaram que o maçom, por sua pureza de conduta e vida de serviço, recebe a aceitação na Loja Celestial onde o G.A.D.U. preside.[76] Visto na literatura maçônica, o conceito da imortalidade da alma aproxima-se mais da hierarquia espiritual do espiritismo brasileiro, consistindo num sincretismo de elementos religiosos.[77] Procuramos em vão qualquer referência ao inferno ou à separação de Deus devido ao pecado, e mesmo sobre o juízo final, ou seja, as doutrinas bíblicas que estabelecem a estrutura do evangelho de Jesus Cristo.[78] Cada vez mais, fica auto-evidente que a participação do cristão numa irmandade assim é uma negação implícita de tais verdades.

d. O proselitismo evangélico. A perspectiva da maçonaria sobre o cristão também é importante a esse respeito. Elogiando o hinduísmo como uma religião que não busca seguidores, Mackey destaca a regra de toda ordem: “Em termos absolutos, a maçonaria é rigorosamente contra todo proselitismo”.[79] Admitindo sua própria religiosidade, a maçonaria proíbe o evangélico de falar sobre Cristo na loja. Em Maçonaria: Contra ou a favor?, o Pr. J.J. Soares narra que em “certa ocasião perguntou a um ilustre pastor, que na época era venerável [mestre], se ele conhecia algum maçom que tivesse aceitado o evangelho, não teve surpresa com a resposta: ‘nenhum’.”[80] Inversamente, por mais rara que seja, qualquer forma de “cristianização” conservadora da maçonaria – vista, por exemplo, em A Maçonaria e o Cristianismo, de Jorge Buarque Lyra (1953) – é, na melhor das hipótese, tolerada, sendo geralmente denegrida e refutada pelas autoridades.[81]

7. Existem Vínculos Entre a Maçonaria e as Religiões Ocultas?

A maioria dos maçons ridicularizaria a acusação de que a fraternidade esconde elementos das religiões ocultas. Eles dizem que os símbolos encontram-se abertos a interpretações diversas e, na verdade, não importa se alguns querem interpretá-los de uma forma mística. Contudo, John Ankerberg, autor de cinco documentários sobre a maçonaria, observa:

A maioria dos maçons que participam dos rituais não compreende seu sentido oculto. Caso sigam a maçonaria apenas como uma participação irrefletida nos rituais, para eles talvez seja verdade que a sociedade não é ocultista. Tais maçons desconhecem o significado misterioso de muitos dos símbolos e rituais maçônicos, e escolheram não abordar a questão. Mas isso não se aplica a todos os maçons. Há outros que realmente buscam o sentido oculto.[82]

Em The Brotherhood (“A Irmandade”), Knight nota que os adeptos maçons quase sempre mostram atração pelo oculto, procurando “o significado real” existente por trás das ambigüidades dos ritos: “Tais pessoas são gradualmente aceitas no santuário interior da irmandade”.[83] Como o alcance do relacionamento entre a maçonaria e o oculto é vasto, limitaremos as observações a três áreas: os juramentos, a ilusão e a simbologia pagã.

a. Os juramentos. Cada maçom jura ser leal à fraternidade acima de qualquer outro grupo (incluindo a igreja), mediante votos extremamente fortes. Prometendo solenemente não divulgar os segredos da maçonaria – nem os crimes de outros maçons (exceto o homicídio e a traição) – o iniciado jura o seguinte, sobre o Livro Sagrado (a Bíblia, Alcorão ou Vedas etc.):

Eu …juro e prometo, de minha livre vontade, pela minha honra e pela minha fé, em presença do Supremo Arquiteto do Universo, que é Deus, e perante sta assembléia de maçons, solene e sinceramente, nunca revelar qualquer dos mistérios da maçonaria que me vão ser confiados… Se violar este juramento seja-me arrancada a língua, o pescoço cortado e meu corpo enterrado nas águas do mar, onde o nuxo e renuxo me mergulhem em perpétuo esquecimento, sendo declarado sacrílego para com Deus e desonrado com os homens. Assim seja.[84]

Outros juramentos maçônicos são semelhantes, cada um exigindo fidelidade absoluta à Ordem – muitas vezes com votos de sangue. O juramento do 33° Grau no Templo em Washington, D.C., por exemplo, é selado bebendo vinho de um crânio humano, e um indivíduo vestido como se fosse um esqueleto abraça cada participante no momento do voto fatal.[85] Enquanto certos juramentos na cultura geral parecem lícitos diante da lei, biblicamente o cristão é proibido de jurar sem necessidade (Lv 5.4-6; Mt 5.33-37), muito menos quando isso envolve votos bizarros e sanguinolentos, invocando a morte – os quais caracterizam a maçonaria e todo o ocultismo. Nisso, quase todas as fraternidades secretas e seitas ocultas seguem o padrão da maçonaria.[86]

b. A ilusão. Os escritores mais eminentes da confraria admitem que a elite maçônica ilude os maçons dos níveis inferiores, deixando que eles creiam no que desejam. As verdades mais sublimes permanecem ocultas dos neófitos, sendo que os mais avançados mantêm as chaves do “conhecimento real”. Segundo Martin L. Wagner:

A maçonaria esconde ciosamente seus segredos, e intencionalmente desorienta os intérpretes presunçosos. Parte dos símbolos é exposta ao iniciado, mas ele é deliberadamente enganado por interpretações falsas… Os segredos reais permanecem ocultos e… esses se encontram tão profundamente encobertos para o maçom quanto para qualquer outra pessoa, a menos que tenha estudado a ciência do simbolismo em geral, e do simbolismo maçônico em particular… A venda real nunca é completamente removida dos olhos de uma imensa maioria dos membros da confraria. Eles nunca são levados à verdadeira luz da maçonaria… Eles enxergam as vestimentas, mas não aquilo ‘que os trajes ocultam.[87]

O fato de as autoridades admitirem o engano dos iniciados deve levantar suspeitas em duas áreas críticas. (1) A ética da organização maçônica é questionada. Por trás dos “bons homens”, há uma estrutura clandestina de poder e manipulação. Existem vários livros argumentando que uma fraternidade secreta na civilização geral acaba pervertendo a justiça e minando a democracia; há sempre uma hierarquia oculta que defende seus próprios interesses.[88] Quando o juiz, o advogado, o policial e os criminosos são todos maçons, o veredicto será muito diferente do que no caso de um criminoso comum. Da mesma forma, numa denominação, quando existe uma hierarquia maçônica secreta, a unidade, a honestidade e a transparência do Corpo de Cristo são sacrificadas por manipulações políticas, segredos e jogos de poder – algo que alguns afirmam marca várias denominações evangélicas brasileiras. (2) O mesmo fato da ilusão dos maçons inferiores levanta, também, uma suspeita sobre a validade da interpretação cristã que os evangélicos maçons fazem dos ritos. Parece mais um entendimento que é tolerado com o propósito de penetrar na igreja e, assim, controlá-la. Os dados já apresentados indicam que a maçonaria, de fato, não possui nenhum interesse no evangelho do cristianismo clássico.

c. A simbologia pagã. Por natureza, os símbolos sempre significam algo, ou nem seriam usados. Não são elementos vazios ou arbitrários. Na melhor das hipóteses, é algo ingênuo o cristão maçom dizer que os milhares de símbolos da Ordem são meramente relativos à fé do indivíduo, podendo ser tanto bíblicos quanto pagãos.

Há mais duas considerações importantes nessa questão. Primeiro, não existe uma teoria conclusiva sobre as origens históricas da maçonaria. Segundo Morey, foi a maçonaria francesa que desenvolveu as idéias esotéricas popularizadas por Albert Pike, a saber, de que a maçonaria foi iniciada nas religiões antigas e ocultas. Hoje, “nove em cada dez livros repetem essencialmente Pike”, o qual, por sua vez, plagiou as idéias de Abbe Robin, Alexander Lenoir, Eliphas Levi e Godfrey Higgins:

Será em vão procurar quaisquer referências aos mistérios ou divindades pagãs na maçonaria antiga. Não pudemos encontrar uma única menção às artes ocultas, tais como a magia ou a astrologia. Ninguém alegava ser um druida ou um feiticeiro. O primeiro escritor que tentou associar os mistérios pagãos à maçonaria foi Abbe Robin, em 1780. Ele afirmava que a maçonaria era a guardiã atual dos mistérios antigos.[89]

Enquanto os rituais de hoje derivam de um processo evolutivo,[90] os eruditos geralmente concordam que Pike e Mackey são os arquitetos da maçonaria atual, seguidos por H. W. Coil, Newton, Duncan, Clausen, Waite, Mellor et. a!. Assim, as raízes históricas não vêm diretamente das religiões pagãs; o ocultismo, em parte, foi imposto à fraternidade.

Por outro lado, discordar de que a maçonaria originou-se diretamente das religiões pagãs não significa negar que os símbolos maçônicos encerram um significado ocultista. As questões principais não são tanto históricas, mas filosóficas: de onde vêm os símbolos maçônicos usados hoje? E, ainda mais importante, quais são as interpretações normativas desses símbolos dentro da confraria? Os limites do presente trabalho exigem um resumo desse tópico, que é ao mesmo tempo abrangente e fundamental. Há uma crescente dominância das interpretações explicitamente ocultas acerca dos símbolos da maçonaria. Albert Pike e Manly P. Hall eram conhecidos como cabalistas e luciferianos,[91] e sua influência é notável nos graus mais altos da maçonaria. Pike declarou que “a cabala é a chave das ciências ocultas” e “todas as associações maçônicas devem a ela [a cabala] seus símbolos e seus segredos”.[92] Junto com a cabala, a maçonaria bebe livremente das fontes da filosofia hermética, do rosicrucianismo, das religiões orientais e da Nova Era. O mais condecorado maçom do mundo, H. V. B. Voorhis, autor de vinte e seis livros, declara que existe um nível da maçonaria – “mais profundo do que a membresia geral compreende” – chamado de maçonaria oculta.[93] O Soberano Grande Comendador Henry C. Clausen promulga “a verdadeira Nova Era” com “nosso altar no Oriente” e a “divindade em todas as coisas”.[94] No Brasil, quase não há exceção à simbologia oculta, existindo centenas de livros que defendem as interpretações cabalistas, alquimistas, gnósticas, teosofistas e espíritas dos ritos e símbolos da maçonaria.[95] Já observamos os nomes atribuídos a Deus (JABULOM, Abadom), a missa maçônica da Semana Santa e certos ritos e juramentos, com suas implicações pagãs. Símbolos como a estrela invertida (pentalfa, sinal comum do satanismo), a serpente, a pirâmide com o olho esquerdo, crânios humanos, o bafomet (cabra de Mendes, deus do Egito) etc. dificilmente são neutros, e muito menos cristãos.[96] Infelizmente, justamente por serem símbolos ocultos, é impossível provar por completo seu significado absoluto sem que se profira outra interpretação.

Com a União Batista da Escócia, concluímos: “Certamente, todo o complexo de idéias inerentes à maçonaria traz semelhanças precisas com o ocultismo, estando em nítido contraste com a pureza e a simplicidade do evangelho, e seria inconsistente com o ‘caminhar na luz’ do cristão”.[97] Provavelmente, segundo Ankerberg,[98] com o novo misticismo mundial (e sem dúvida no Brasil), a fraternidade e o ocultismo estarão cada vez mais servindo um ao outro – os maçons sendo levados às artes negras, e os ocultistas infiltrando-se e dominando a maçonaria.

CONCLUSÃO

Baseado em sua extensa pesquisa, Stephen Knight – que não é nem cristão, nem maçom – observa o seguinte: “A maçonaria está extremamente preocupada em ter – ou parecer que tem – boas relações com todas as igrejas cristãs”.[99] Ele prossegue dizendo que, dentro da igreja, o poder maçônico é tão forte que “a igreja… não ousa ofender ou provocar milhares de leigos influentes e, muitas vezes, financeiramente abastados, investigando as implicações religiosas da maçonaria.[100]

Notamos as evidências de que: (1) é possível obter um conhecimento adequado da filosofia e das cerimônias da maçonaria; (2) a fraternidade é, em todos os elementos básicos da definição, religiosa por natureza; (3) o uso da Bíblia é meramente simbólico, sendo os ensinos reinterpretados conforme qualquer filosofia que o maçom quiser; (4) o vago conceito do G.A.D.U. maçônico é compatível com toda religião; (5) há uma omissão quase absoluta de referências sobre Jesus Cristo, mas não de vários outros líderes religiosos; (6) o homem, bom em si mesmo, torna-se aceitável por sua própria justiça diante do G.A.D.U.; e (7) há elos cada vez mais fortes com o ocultismo, os quais, de fato, saturam os ritos e símbolos maçônicos. Portanto, fica autoevidente que a religião maçônica é ambígua, mas não vazia. E é justamente essa ambigüidade, assim como as religiões sincretistas do Egito, de Caná, da Babilônia da antiga cultura grega e do Império Romano – sempre vistas na Bíblia como falsas e diabólicas – que torna a maçonaria totalmente incompatível com a fé cristã.

Mas o enigma continua. Como cristãos, e até mesmo pastores evangélicos, podem pertencer à loja? Por um lado, “é impossível… manchar os caráteres de tantos maçons ilustres com a adoração ao diabo”.[101] Há indivíduos bons na irmandade. E nem todas as lojas e ordens funcionam com a mesma ênfase em seus ensinos religiosos e filosóficos. Por outro lado, uma vez dentro da confraria, é difícil sair. Diante de poderosos membros da sociedade, o cristão maçom faz juramentos solenes de segredos. Pode-se dizer, também, que o cristão geralmente permanece nos graus inferiores, muitas vezes mantendo uma ignorância intencional para aproveitar as ligações privilegiadas.[102] Sem dúvida, muitos cristãos maçons justificam-se com razões sentimentais por se sentirem bem e aceitos na irmandade elite, não fazendo nenhuma reflexão religiosa. Como há outros cristãos na Ordem, ele se engana, evitando as inescapáveis implicações dos ritos, palestras e escritos dos mais adeptos, e explica-se dizendo que, de uma forma ou de outra, está servindo a Deus. Visto de uma maneira mais crítica, ele adora 11m deus falso, cala seu testemunho de Cristo, aceita o fato de que o homem pode salvar a si mesmo, contribui com mensalidades e taxas para cada grau e, assim, colabora tacitamente para a perdição dos outros maçons que precisam da verdadeira luz.

Alva J. McClain, fundador do Grace Theological Seminary, apresenta quatro explicações para o fato de o chamado cristão permanecer na Maçonaria.[103] (1) Ele não entende de que consiste o cristianismo bíblico; para ele, é apenas uma religião sincretista e liberal. (2) Ele não compreende o que é a maçonaria, desconhecendo a filosofia religiosa da confraria (pois há uma extraordinária ignorância dentro do movimento). (3) Alguns cristãos continuam se relacionando com a maçonaria, apesar de entenderem o que é o cristianismo e o que é a maçonaria. Estes ficam sem desculpa, especialmente se forem pastores – caso idêntico ao dos sacerdotes que esconderam seus deuses abomináveis no Templo sagrado em Jerusalém, na visão de Ezequiel 8. E (4) alguns dos chamados cristãos dentro da maçonaria já são apóstatas da verdadeira fé. Apesar de diferenças teológicas, concluímos junto com o catolicismo, as ortodoxias grega e russa e as declarações de muitas denominações evangélicas, que o cristianismo e a maçonaria são, de fato, mutuamente exclusivos.

Profira-se mais uma palavra. Diante do crescimento do ocultismo no Brasil, as igrejas precisam fazer as difíceis perguntas sobre a compatibilidade da maçonaria com a fé bíblica. Os leigos, ao pastor; o pastor, aos leigos. A igreja, diante da denominação; a denominação, perante as igrejas. Como os herdeiros das doutrinas da reforma – sola fide, sola gratia, sola scriptura – podem continuar como as únicas tradições cristãs que não confrontam a filosofia maçônica? É hora de pedir coragem aos evangélicos dentro das lojas para que se desvinculem da maçonaria (2 Co 6.14-17), e isto, com a graça e o testemunho honesto da verdadeira Luz, Caminho e Vida. Ressalvamos que, da perspectiva humana, há indivíduos bons e obras sociais admiráveis na maçonaria. Entretanto, que a estrutura religiosa e filosófica da maçonaria é contrária aos princípios fundamentais da fé cristã, isso é impossível negar.

Sobre o autor: Scott Horrell é norte-americano e foi, durante muitos anos, missionário no Brasil. Formado em Literatura Inglesa, ele aprimorou seus conhecimentos teológicos na comunidade evangélica L’Abri, na Suíça, a qual era dirigida por Francis Schaeffer. Mais tarde, faria o Mestrado em Teologia no Dallas Theological Seminary, nos EUA, antes de ir para Porto Alegre como missionário. Voltaria, então, para Dallas, onde obteria seu título de Doutor em Teologia. De volta ao Brasil, estabeleceu-se em São Paulo, e foi coordenador da Graduação da Faculdade Teológica Batista. Atualmente, é professor do Departamento de Teologia Sistemática do Dallas Theological Seminary.

Publicado originalmente em VOX SCRIPTURAE 3:1 (março de 1993), p.73-100

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Sobre Fabiano Botero

Deformado pelo mundo, sendo formado em Cristo!

Publicado em 23/06/2011, em Apocalipse, Artigos e marcado como , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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