FATO 50 – Sociedade Secreta Maçonaria – Parte 1


Maçonaria: Tensões e Perguntas

J. Scott Horrell

A maçonaria constitui um enigma para o povo evangélico. Sendo a maior sociedade secreta do mundo, com cerca de seis milhões de membros atualmente, a maçonaria tem uma longa história entrelaçada com o protestantismo – especialmente na Grã-Bretanha, na Europa, nos Estados Unidos (com 4 milhões de membros) e no Brasil [1]. Ao mesmo tempo, a fraternidade orgulha-se de contar com membros das elites do mundo, seja no passado [2] ou no presente: desde Voltaire, Mozart, Garibaldi e Goethe, até vários nobres da Europa – incluindo o rei da Suécia e a Rainha Elizabete II (Grande Patronesa da Loja Britânica) – além de catorze presidentes dos Estados Unidos (Johnson, Ford, Reagan etc.). George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos, era um Grão-Mestre maçom, sendo considerado um dos adeptos mais fiéis de todas as treze colônias de sua época. Não é por acaso que a cédula do dólar americano, que tem o retrato de Washington, traz a pirâmide, o esquadro, a águia e outros símbolos maçônicos junto com as palavras NOVUS ORDO SECLORUM (sic., “nova ordem dos séculos”) [3]. O fato de que milhares de pastores e leigos evangélicos ao redor do mundo fazem parte das lojas maçônicas, e de que projetos filantrópicos de grande porte são administrados por eles [4] sugere que essa sociedade só oferece o bem, e até promulga valores e ensinos cristãos.

Por outro lado, conforme alguns estudiosos sustentam, a maçonaria, apesar de se autodenominar não-religiosa, divulga uma filosofia essencialmente anti-cristã. Subjacente à irmandade e aos esforços de caridade, existe um programa não manifesto advogando uma religião sincretista, negando a pessoa divina e a obra salvífica de Jesus Cristo, e mantendo elos sinistros com o ocultismo. A maçonaria foi rejeitada como antitética à fé cristã pelos católicos romanos [5] e pelas Igrejas Ortodoxas Oriental e Russa [6]. Mais recentemente, várias denominações protestantes estão reavaliando o envolvimento de seus membros na sociedade maçônica, chegando a conclusões surpreendentes: A nosso ver, a obediência total a Cristo impede a adesão a qualquer organização, tal como o movimento maçônico, que parece requerer uma fidelidade integral a si mesma… Exige-se do iniciado que ele se entregue à maçonaria assim como o cristão deve entregar-se somente a Cristo. (A Igreja da Escócia, 1965) [7]

[Este] relatório indica várias razões fundamentais para se questionar a compatibilidade da maçonaria com o cristianismo. (A Igreja da Inglaterra, 1985) [8]

Mesmo na interpretação mais generosa das evidências, permanecem sérias questões para os cristãos acerca da maçonaria… Existe um grande perigo de o cristão que se torna maçom acabar comprometendo sua fé cristã ou sua fidelidade a Cristo, talvez sem perceber o que está fazendo. Conseqüentemente, nossa orientação ao povo metodista é que os metodistas não devem se tornar maçons. (A Igreja Metodista Britânica, 1985) [9]

Sentimos que existe um grande perigo de que o cristão maçom acabe comprometendo sua fidelidade a Jesus, talvez sem perceber o que está fazendo… a conclusão evidente a que chegamos em nossa pesquisa é que há uma incompatibilidade inerente entre a maçonaria e a fé cristã. (As Uniões Batistas da Escócia, Grã-Bretanha e Irlanda, 1987) [10]

Enquanto várias denominações da América do Norte já renunciaram a maçonaria [11] a maior igreja evangélica dos Estados Unidos, a Convenção Batista do Sul – que possui um alto índice de membros maçônicos – está em processo de pesquisa sobre essa questão, e sabe-se que teme que os resultados possam dividir a denominação. Fundadas ou não, tais preocupações das denominações tradicionais devem alertar o cristão, inclusive o cristão maçom, para o fato de que talvez existam elementos básicos da loja maçônica que são questionáveis. A maçonaria, portanto, levanta tensões e perguntas que nem sempre se resolvem facilmente.

No Congresso Maçônico Internacional de 1899, afirmou-se que a fraternidade assumiu o lugar central em todos os movimentos revolucionários do mundo no século XIX [12], inclusive no Brasil. Na maior parte da América Latina, conforme se vê nas histórias de Simon Bolívar, Carlos Alvear, San Martin e Francisco Miranda, a maçonaria e as sociedades semi-maçônicas forneciam as estruturas clandestinas para planejar e financiar as lutas revolucionárias pela independência.[13] Na história brasileira, apesar de ambigüidades sobre quando a verdadeira maçonaria começou, por volta de 1800 havia várias organizações com inspiração maçônica – como as Inconfidências Mineira, Carioca e Baiana – as quais contribuíram grandemente para a autonomia nacional. Mais tarde, com o domínio da maçonaria inglesa (ou Maçonaria Azul, advogando o monarquismo parlamentar) sobre a francesa (ou Maçonaria Vermelha, defendendo a democracia),[14] o próprio Imperador D. Pedro I foi iniciado e, logo, proclamado o Grão-Mestre da loja Grande Oriente do Brasil, em 1822. [15] Conforme o historiador maçônico Manoel Gomes (33°), tanto a libertação do Brasil do domínio português quanto a passagem da monarquia para a república “foram movimentos idealizados, preparados e tornados realidade” pelas lojas da maçonaria.[16] Entre seus membros ilustres, ele inclui Tiradentes, Castro Alves, Rui Barbosa, Marechal Deodoro da Fonseca, Marechal Floriano Peixoto, Duque de Caxias, Campos Sales e Padre Diogo Feijó. É interessante notar que, apesar da proibição papal, vários padres, bispos e cônegos faziam parte da maçonaria brasileira antiga, aparentemente como veículo de suas convicções políticas.[17]

O elo evangélico aparece mais tarde. Com sua filosofia de religião aberta (sendo, conforme certos estudiosos, anti-católica), a maçonaria brasileira facilitou, em alguns casos, a entrada de missionários evangélicos no país. Às vezes, a loja maçônica até os protegia da oposição da Igreja Católica.[18] Outras vezes, pelo menos no nível individual, a fraternidade maçônica ajudou a financiar a construção dos templos evangélicos. Por estas e outras razões, a maçonaria goza de alta aceitação em meio a certas denominações protestantes do Brasil, contando até com defensores entre os pastores nacionais.[19] O testemunho sincero do Pr. José Motta reflete uma experiência que não é incomum. Sendo convidado para requerer seu ingresso na maçonaria, o jovem pastor batista foi visitado por um respeitado advogado cristão:

… ele foi me dizendo que também era maçom e que muito se orgulhava de sê-Ia, pois não via inconveniência para nós, crentes em Jesus; pelo contrário, as coisas se tornam mais fáceis para a penetração na sociedade como maçons e a nossa influência como crentes se torna mais acentuada e respeitada… [No dia em que o PI. Motta, com 23 anos, declarou que queria entrar para a maçonaria:] Vi-me cercado por homens da alta sociedade, dentre eles médicos, generais de Exército, aposentados, professores, advogados e outros… Foram momentos agradáveis.

… Agora eu sou maçom. Inicia-se, assim, uma nova etapa na minha vida. Dediquei-me aos trabalhos. Fazia algumas palestras e nessas fazia menção da Bíblia… Louvado seja Deus! A nossa casa era o centro dos encontros. Visitas não faltavam. Famílias e maçons e outros amigos, inclusive de freiras, eram as constantes visitas. Na Loja, pela dedicação na área de assistência social e na educação de adultos, fui galgando os degraus… Sentia-me útil e sabia que, em tudo isso, Deus estava me projetando para o futuro, preparando-me para a Sua Obra.[20]

Tipicamente, os argumentos de maçons evangélicos são que a maçonaria: (1) é uma fraternidade benemérita e não-religiosa; (2) gera respeito para a presença evangélica entre pessoas de alto gabarito; e (3) abre caminho para servir a Deus na sociedade em geral.

Nem todos os evangélicos no Brasil manifestam o mesmo entusiasmo. Algumas denominações são explícita ou implicitamente anti-maçônicas. Em 1903, a Igreja Presbiteriana Independente formou-se sob a liderança de Eduardo Carlos Pereira, separando-se da Igreja Presbiteriana Sinodal (Presbiteriana do Brasil) principalmente devido à questão da loja. A Igreja Luterana Concórdia também se destaca por ser contra a maçonaria. De modo menos agressivo, a Igreja Batista Pioneira continua distinguindo-se’ dentro da Convenção Batista Brasileira, em parte devido a essa causa. Com poucas exceções, as denominações teologicamente mais conservadoras fundamentalistas, holiness (Metodista Livre e Wesleyana) e pentecostais (Assembléia de Deus; Igreja Quadrangular, com exceções) – posicionam-se contra a maçonaria, enquanto as igreja evangélicas tradicionais permitem que seus membros afiliem-se às lojas.[21]

Hoje, apesar de ter uma história marcada pela fragmentação, o conjunto das ordens maçônicas do Brasil é uma das grandes potências mundiais da sociedade, consistindo na maior dos países latinos (europeus e americanos), com cerca de 150.000 membros.[22] O novo Palácio Maçônico de Brasília do Grande Oriente do Brasil – a ordem maçônica mais numerosa do país, possuindo por volta de 100.000 membros – foi inaugurado em dezembro de 1992. A cerimônia foi assistida por um grupo de maçons que incluía 120 parlamentares federais e Maurício Corrêa (Ministro da Justiça), o qual, por sua vez, representou o Presidente da República Itamar Franco (Fernando Collor também é maçom).[23] No ano 2000, a Conferência Internacional dos Grandes Soberanos Comendadores acontecerá no Brasil e, conforme a entrevista de Ano Zero com Venâncio Igrejas, o Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33, “muitos acreditam que o Brasil será um dos países que sediará o advento de uma nova Consciência no século XXI”.[24] Através das Ordens DeMolay e Arco-Íris, dedicadas aos jovens, a influência da maçonaria no Brasil, ao contrário de em outras partes do mundo, parece cada vez mais forte.

Certamente, a presença maçônica está deixando sua marca nas igrejas evangélicas do país. O poder dos maçons na organização de certas denominações é tão marcante que, às vezes, na expressão frustrada de um líder nacional, “parece que há uma hierarquia [maçônica] por trás da hierarquia [denominacional]”. Fundados ou não, existem boatos entre jovens pastores de que, sem ser maçom, não se consegue subir nas estruturas eclesiásticas. Portanto, a questão da maçonaria na igreja evangélica é importante e urgente, acarretando conseqüências para o futuro que nem todos querem reconhecer – posicionando-se seja a favor ou contra.

Esta prolongada introdução leva-nos ao propósito do artigo: analisar a compatibilidade entre a filosofia maçônica e as afirmações centrais da fé evangélica. Não procuraremos julgar a irmandade maçônica em si, nem negar que há indivíduos nas lojas os quais desconhecem ou discordam dos ensinos em geral proferidos dentro das ordens. Responderemos às seguintes perguntas:

1. É possível ter um conhecimento definido sobre a filosofia maçônica?
2. A maçonaria é uma religião?
3. Qual é o lugar que a Bíblia ocupa?
4. Quem é o Deus da maçonaria?
5. Qual é o lugar de Jesus Cristo?
6. Como alguém é salvo?
7. Existem vínculos entre a maçonaria e as religiões ocultas? Na conclusão, faremos observações sobre o relacionamento entre o evangelismo e a maçonaria no Brasil.

1. É Possível Ter um Conhecimento Definido Sobre a Filosofia Maçônica?

Basicamente, os maçons apresentam três alegações defendendo sua posição de que o não-maçom não sabe seus ensinos. Em primeiro lugar, como a confraria é uma sociedade secreta histórica e geograficamente variada em suas formas, o não-maçom simplesmente não tem acesso ao conhecimento claro de seus rituais, símbolos e ensinos. Em segundo lugar, existe uma grande quantidade de livros que se projetam como representantes da verdadeira maçonaria, quando, de fato, em geral não são aceitos pelas lojas, ofuscando assim qualquer imagem distinta pelo público. Finalmente, de acordo com o escritor maçom Alphonse Cerza, não existe uma autoridade final na maçonaria: “Os anti-maçons têm dificuldades em entender que a maçonaria não possui uma ‘voz oficial’, e que a liberdade de pensamento e expressão é um dos princípios essenciais da Ordem“. [25]

Admitindo que a maçonaria não exalta um livro ou líder como autoridade absoluta e universal, ainda assim ninguém negaria que as ordens e lojas reconhecem autoridades – o que é comprovado pelo fato de que 90% da maçonaria mundial pertence ao Rito Escocês Antigo e Aceito, com seus Supremos Conselhos do 33° Grau. Na verdade, existem várias autoridades: (1) os Landmarks (25 fundamentos absolutos);[26] (2) a Constituição e os regulamentos gerais das ordens, determinados pelos Supremos Conselhos; (3) o Ritual em si – especialmente o da Loja Azul (os três passos básicos de todos os Mestres-Maçons de qualquer rito ou ordem);[27] (4) o Supremo Grande Comendador da Ordem e o Grão-Mestre da loja; e (5) um fato patentemente comprovado mediante extensas pesquisas, há livros reconhecidos e usados no mundo inteiro. Por ordem de preferência nos Estados Unidos, as três obras mais empregadas são: Coil’s Masonic Encyclopedia (Enciclopédia Maçônica de Coil”); The Builders (“Os Construtores”), de Joseph Fort Newton; e Mackey’s Revised Encyclopedia of Freemasonry (“Enciclopédia Revisada de Maçonaria de Mackey”).[28]

No Brasil, é surpreendente o número de bibliotecas e livrarias (de volumes novos e usados) – especialmente espíritas – que estão repletas de literatura maçônica, incluindo as obras “secretas” da Editora Maçônica. Encontram-se acessíveis ao pesquisador não-maçom dezenas de livros escritos por autoridades maçônicas brasileiras, tais como Jorge Adoum (o Mago Jefa), Nicola Aslan (33°), Joaquim Gervásio de Figueiredo (33°), Manoel Gomes (33°), Rizzardo da Camino (33°) e Zilmar de Paula Barros (33°) – além de muitos outros autores traduzidos em língua portuguesa.[29] Embora os maçons neguem a autoridade absoluta de qualquer um desses indivíduos, não se pode deixar de admitir que a maior parte de seus escritos é representativa da prática e do ensino da maçonaria brasileira (reconhecendo algumas diferenças entre as ordens). Com os documentários e as obras públicas sobre a sociedade, além dos vários livros evangélicos de ex-líderes maçônicos que asseveram expor os segredos da sociedade, existem boas bases para a pesquisa.[30] Tudo isso refuta o argumento de que somente os maçons possuem acesso à sua filosofia.

2. A Maçonaria É uma Religião?

Uma das imagens mais divulgadas pela Loja é a de que a maçonaria não possui dogmas ou credos, sendo que apóia toda religião civil e deixa o indivíduo maçom livre para ter suas próprias convicções de fé. Nas palavras de Venâncio Igrejas, a voz mais autorizada do Brasil: “Nos templos não discutimos política e religião”.[31] A Ordem rejeita categoricamente o ateísmo e diz que apóia a religião da cultura dentro da qual funciona, pretendendo apenas o melhoramento do caráter e da moral de seus membros. Sobre essa diversidade religiosa, Nicola Aslan (33°), em seu Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia, comenta:

A respeito da religião da Maçonaria, as opiniões são muito divididas entre os Maçons e elas dependem, em grande parte, das tendências religiosas e filosóficas que norteiam as obediências e os ritos maçônicos.

Assim, a Maçonaria anglo-saxônica, em grande parte protestante, é considerada profundamente religiosa e teísta, como o Rito de York… Julga-se geralmente a Maçonaria francesa como racionalista, porque, através do Rito Moderno, permite a iniciação a pessoas sem crença definida, considerando que as opiniões religiosas são questões de foro íntimo, enquanto o Rito Escocês Antigo e Aceito, embora exija a crença em Deus do candidato, é denominado deísta…32

Aslan está parcialmente correto. A religiosidade da loja local depende de vários fatores. Muitas vezes, especialmente nos graus mais baixos, a religião aparece apenas como um elemento periférico da função da loja. Outras vezes, a ênfase teológica (implícita ou explícita) pode variar desde o panteísmo e o ocultismo até um teísmo ecumênico e semi-cristão – por exemplo, no sul dos Estados Unidos. Com certa freqüência, os anti-maçons ignoram a diversidade dos ritos e formas práticas das lojas nesse sentido.

Por outro lado, a palavra religião tem uma definição geral que os defensores da maçonaria não podem ignorar. Na obra The Encyclopedia of Philosophy (“Enciclopédia de Filosofia”), encontramos a descrição de nove marcas da religião: (1) a crença num ser ou seres sobrenaturais; (2) a distinção entre objetos sagrados e profanos; (3) atos rituais orientados para esses objetos; (4) um código moral com sanção divina; (5) sentimentos religiosos despertados por objetos ou rituais sagrados e relacionados, em teoria, com um deus ou deuses; (6) a oração; (7) uma cosmovisão que engloba o lugar do indivíduo no mundo; (8) a organização da vida ao redor dessa cosmovisão; (9) um grupo social que é unificado pelas características acima.[33] Conforme Ankerberg e Weldon claramente documentam, a maçonaria caracteriza-se por cada uma dessas qualificações.[34] Por isso, a grande maioria dos líderes admite que a maçonaria é, na verdade, uma religião:

A maçonaria pode afirmar corretamente chamar-se uma instituição religiosa… Veja seus antigos landmarks, suas cerimônias sublimes, seus profundos símbolos e alegorias – todos inculcando uma doutrina religiosa, ordenando uma observância religiosa e a verdade religiosa, e quem pode negar que ela é eminentemente uma instituição religiosa?.. Abrimos e fechamos nossas lojas com uma oração; invocamos a bênção do Altíssimo sobre todos nossos trabalhos; exigimos de nossos neófitos uma profissão de fé confiante na existência e no cuidado providencial de Deus. (Mackey) [35]

Rizzardo da Camino, no Dicionário Maçônico, declara abertamente: “A Maçonaria é uma Religião, no sentido estrito do vocábulo, isto é, na ‘Harmonização’ da criatura ao Criador. É a Religião [sic.] Maior e Universal”.[36] Joaquim Gervásio de Figueiredo, no Dicionário de Maçonaria, define a irmandade da seguinte maneira:

Maçonaria: “É um sistema sacramental que, como todo sacramento, tem um aspecto externo, visível, consistente em seu cerimonial, doutrinas e símbolos, e outro aspecto interno, mental e espiritual, oculto sob as cerimônias, doutrinas e símbolos, e acessível só ao maçom que haja aprendido a usar sua imaginação espiritual e seja capaz de apreciar a realidade velada pelo símbolo externo”. [37]

Existem dezenas de declarações paralelas.[38] Conquanto haja divergências (uma face pública, outra interna), grande parte da literatura maçônica sem dúvida no Brasil – sustenta abertamente a natureza religiosa da fraternidade. No Brasil, o fato de se descobrirem, em livrarias e bibliotecas, obras sobre a maçonaria junto com livros acerca de esoterismo, ocultismo e religião comprova o consenso público nessa questão. De fato, em quase todos seus escritos, a maçonaria apresenta-se como a essência da religião.[39]

3. Qual é o Lugar Que a Bíblia Ocupa na Maçonaria?

Às vezes, os cristãos maçons destacam que a maçonaria especulativa foi iniciada por dois pastores e, assim, é essencialmente cristã em seus fundamentos. Pelo menos, não contradiz nada do que o cristianismo promulga. Na revista maçônica New Age, Winston Watts (32°) expõe a procura da verdade, afirmando que, “na maior parte, nossa busca está centrada na Bíblia Sagrada, a fonte principal de nosso conhecimento”.[40] Em virtualmente todos os dicionários maçônicos, a Bíblia – “o Livro da Lei”é exaltada como “um dos grandes Luzeiros da Maçonaria”,[41] um elemento importantíssimo dos móveis da loja ocidental, sobre o qual todo cristão iniciado faz seu juramento. Em parte, é com base em certas figuras bíblicas – por exemplo, São João Batista, São João Evangelista, João Marcos e o artífice Hirãm-Abitt (ou Hirão Abi, 1 Rs 7.13-14; 2 Cr 2.13-14) – que a maçonaria desenvolveu suas mitologias e rituais.

Em toda a literatura maçônica (Ritos York e Escocês), entretanto, dificilmente se descobre qualquer afirmação acerca da única inspiração verbal ou da autoridade soberana das Escrituras. Sem exceção, os autores fazem questão de insistir que a Bíblia é apenas um livro sagrado, usado como metáfora da vontade divina e da lei natural. Na Coils Masonic Encyclopedia, a obra mais autorizada nos Estados Unidos, lemos: “A opinião maçônica prevalecente é de que a Bíblia constitui apenas um símbolo da vontade, lei ou revelação divina, e não que seu conteúdo é lei divina, inspirada ou revelada”.[42]

Naturalmente, sendo um símbolo, a Bíblia precisa de interpretação. Zilmar de Paula Barros, em A Maçonaria e O Livro Sagrado, declara que, “com a morte física de Jesus, perdeu-se a PALAVRA. E, entre as múltiplas finalidades. da Maçonaria, está buscar a ‘palavra perdida…’, ou seja TRAZER A HUMANIDADE A VERDADEIRA INTERPRETAÇAO DA MENSAGEM EVANGÉLICA DE JESUS![43] Martin Wagner, um perito em maçonaria, observa o seguinte: “Todos os maçons eminentes afirmam que existe um véu sobre as Escrituras, o qual, quando removido, as torna claramente concordes com os ensinamentos maçônicos, e em harmonia essencial com outros livros [sagrados]”.[44] Logo, a filosofia maçônica constitui o par de óculos através do qual tudo é filtrado.

Apesar da ênfase na Bíblia Sagrada, os livros esotéricos freqüentemente recebem mais atenção. Em suas instruções sobre os três primeiros graus (Loja Azul) no Brasil, Nicola Aslan explica:

A Bíblia e a Cabala fornecem o mais poderoso contingente para o enriquecimento do simbolismo maçônico, e o Ocultismo, abrangendo o conjunto dos sistemas filosóficos e das artes misteriosas derivadas dos conhecimentos dos antigos, deu também abundante contribuição.[45]

Quase sempre, a verdadeira sabedoria (antiga) é descoberta no misterioso e oculto, seguindo o gnosis, a iluminação, a numerologia e, especialmente, a cabala (misticismo judaico).[46] Diante da mistura de religiões sincretistas que predominam na literatura maçônica, a Bíblia fica subjugada a interpretações diversas por meios místicos e alegóricos. Por outro lado, ninguém defende uma interpretação objetiva e histórico-gramatical. A Bíblia é aproveitada por sua ética e como símbolo divino, sem encorajar qualquer interpretação doutrinária de seu conteúdo. De fato, muitas seitas consideradas heréticas são mais fiéis ao significado do texto bíblico do que os escritos maçônicos.

4. Quem É o Deus da Maçonaria?

O Deus maçônico é denominado o Grande Arquiteto do Universo (G.A.D.U.) – o Ser Supremo, Criador ou Força Cósmica da existência e preservação. O Landmark 19 proclama: “A negação da crença do G.A.D.U. é impedimento absoluto e insuperável para a iniciação”.[47] Propositadamente, a definição é ambígua o bastante para englobar todos os conceitos de Deus sustentados pelas religiões – não apenas as teístas (judaica, cristã e islâmica), mas também as dualistas (taoísta, zoroastriana) e as panteístas (gnóstica, espírita, hindu e budista). Sem dúvida, no início da história da maçonaria especulativa, as pressuposições eram mais teístas, como continuam sendo para os cristãos que se envolvem na loja. Ironicamente, foram os reverendos anglicanos James Anderson e John Desagulliers, elaboradores da primeira Constituições (1723), que abriram a maçonaria para todas as crenças e descristianizaram a linguagem maçônica, procurando uma estrutura teológica mais universal.[48] Entretanto, a nível popular, dentro das culturas “cristãs” – cada vez menos, porém – o Grande Arquiteto do Universo continua a ser cultuado como um Ser soberano, inteligente, moral e, em certo sentido, pessoal. Assim como o antigo liberalismo do século passado, a maçonaria proclama “a paternidade do Pai e a fraternidade ao homem”. Semelhantemente, também, a essência da religião define-se mais pela ética do que por qualquer crença em afirmações doutrinárias.[49] Logicamente, tais afirmações já pressupõem uma cosmovisão e uma teologia geral que se encontram expressas em muitos escritos, como no Dicionário de Gervásio de Figueiredo:

Não obstante a imensa diversidade de seus cultos externos, todas as religiões apresentam uma base comum em seus internos princípios morais, filosóficos e místicos. Com efeito, o estudo comparativo das religiões demonstra serem idênticos os seus ensinamentos fundamentais sobre a Divindade, o homem, o universo, a vida futura, porém adaptados à época e ao povo a que se destinaram… Seus imortais fundadores foram todos Mensageiros da Verdade única, que deram à humanidade seu evangelho de União e Fraternidade, para que através do Amor as almas se religuem entre si e ao Supremo. Todos eles foram unânimes em proclamar a Paternidade de Deus e a Fraternidade dos homens. Tal foi, em essência, a mensagem de Vyâsa, Hermes, Trismegisto, Zarathustra, Orfeu, Krishna, Moisés, Pitágoras, Platão, Cristo, Maomet e outros. [50]

O conceito de Deus nos escritos da maçonaria é uma mistura de tudo, de gnosticismo, druidismo, luciferianismo, hinduísmo, taoísmo, zoroastrismo, iluminismo, cristianismo liberal e Nova Era. Mackey declara: “A religião da maçonaria é cosmopolita, universal… ‘Esteja certo’, diz Godfrey Higgins, ‘de que Deus está igualmente presente com o piedoso hindu no templo, o judeu na sinagoga, o muçulmano na mesquita e o cristão na igreja'”.[51] Contudo, por trás do pluralismo, existe uma crença fundamental, articulada por Aslan:

…é absolutamente necessário fazer abstração de todo fanatismo como de todo preconceito religioso ou anti-religioso, posto que estas veneráveis tradições são os “ecos” dos velhos dados da antiga ciência dos Iniciadores, tão intimamente ligada, então, às Religiões que é quase impossível separá-las de sua Mãe.[52]

Ou seja, todas as religiões são representações das antigas e primitivas verdades, destiladas no ensino da maçonaria, que é, em última instância, a Mãe de todas as religiões. Deus, o G.A.D.U., é o Deus buscado e manifestado por todas as religiões. Infelizmente, tal representação – popular no romantismo otimista dos séculos XVIII e XIX – ignora um fato muito patente: seu conceito de Deus determina sua ética. É impossível unificar as definições mais variadas de Deus em torno de uma ética fraternalista: o pacifismo social do hindu, a ética vindicativa do muçulmano e o amor autosacrificial ativo do cristão encontram-se diretamente relacionados com contraditórios conceitos de Deus.

Talvez uma das acusações mais fortes contra a loja seja a seguinte: no grau do Real Arco do Rito de York, quando o maçom supostamente encontra a Arca da Aliança perdida nas ruínas do templo salomônico, descobre-se o verdadeiro nome de Deus como sendo JABULOM. Tal nome, segundo o próprio H. W. Coil, é uma associação de lahweh (o Jeová do Antigo Testamento), Ba’al ou Bel (o deus cananita) e Om (Osiris, o deus-sol do Egito)[53] – o que um autor chama de “Não-Santíssima Trindade”.[54] Outros observam que, no Rito Escocês, no 17° Grau dos Conselhos de Cavaleiros do Oriente e Ocidente, há também a “palavra sagrada” Abadom; este nome divino na maçonaria é o nome do rei ( ou anjo) do abismo, em Apocalipse 9.11.[55]

Embora a maçonaria encoraje um pluralismo da conceituação de Deus, conforme vários autores afirmam, há cada vez menos lugar para o Deus tripessoal da Bíblia. A idéia do Logos e da Trindade é vista de uma forma gnóstica e alegórica, distante da Confissão de Nicéia, como vemos na exposição do 4º Grau por Jorge Adoum [56]. Embora nem todos o façam, alguns eruditos maçônicos, tais como Albert Pike [57], presunçosamente atacam o cristianismo clássico com os argumentos comuns do século XIX, alegando um politeísmo que formou o judaísmo antigo, a base pagã do trinitarismo, e pregando um deísmo otimista característico daquela época. Num novo documentário, Robert A. Morey, um autor bastante objetivo, declara o seguinte:

Centenas de livros maçônicos que atacam o cristianismo e ensinam abertamente o paganismo são publicados, apoiados e recomendados por altos oficiais, lojas estaduais e conselhos supremos. É-nos dito que isso é adequado, porque a Ordem deve ser universal em seu apelo, e cada maçom pode interpretar a palavra “Deus” e os símbolos da confraria da maneira como quiser.

Entretanto, quando um cristão maçom procura oferecer uma interpretação cristã dos rituais e símbolos da confraria, ele é proibido de assim o fazer!… Para cada escritor maçom que diz que a maçonaria não é uma religião, há cinco escritores maçons afirmando que é uma religião pagã… todos eles concordam que o cristianismo está errado e que seus ensinamentos não devem ser permitidos na loja…

Se a maçonaria continuar na direção em que parece estar indo, então os cristãos maçons devem abandonar a Ordem, porque ela vem se tornando uma religião pagã, ocultista, hostil ao cristianismo.[58]

Concluímos que, embora alguns indivíduos e até certas lojas locais sustentem uma definição da divindade mais próxima do cristianismo histórico, a grande maioria ignora ou rejeita a perspectiva bíblica de Deus. Dificilmente se pode negar que, nas águas turvas do ritual e do símbolo maçônicos, há implicações sinistras sobre o entendimento de Deus para o cristão verdadeiro.

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Sobre Fabiano Botero

Deformado pelo mundo, sendo formado em Cristo!

Publicado em 21/06/2011, em Apocalipse, Artigos e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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